CONTOS



DEUS NA COVA
por: Dan Quintão


Estrondo, estalos, um “vrulush” infernal. Escuro, umidade, imobilidade. Soterrado. Apenas o nariz numa pequena câmara, permitindo a respiração. Nada a fazer a não ser esperar. Sem noção de direita ou esquerda, cima ou baixo. Imaginando se estaria a um ou dez metros abaixo do solo.

As horas passam. Ficar soterrado não é divertido. Começa-se então a fazer o que resta: divagar. Apenas o pensamento – e o nariz – é útil nessas horas. Solitário. Silencioso. A sensação de ser um deus no vazio, um deus com uma vantagem sobre o qual se comumente acredita: tinha consciência de sua origem.

Que merda ser Deus! Fazendo universos como se fosse artesanato. Criando algo sabendo o que aconteceria. Marcando presença em tudo, a todo instante, sentido e assistindo cada orgasmo, bem como toda a fome nos mundos. Um frenesi inútil para alguém desprovido de sensações, estímulos nervosos.

Tentou compreender, mas não conseguiu. Ainda se houvesse mais alguém para sentir o cheiro do peido que acabara de soltar, poderiam rir juntos dessa desgraça. Que existência sem-graça: peidar sem ter mais ninguém pra cheirar. Mas sentia-se aliviado por perceber que mesmo soterrado, nu como estava, não havia entrado terra em suas vias anais.

Que vida triste a de Deus! Ao menos ele, pseudo-sub-deus que era, poderia ter a esperança de ser resgatado, algo inviável para um ser tão VIP que seu camarote é aquela mistura de tudo e nada, a qual alguns chamam infinito. Se achando o maioral – algo estranho quando se pergunta “maioral comparado a quem?”, e extremamente estúpido quando conclui-se que “comparado às coisas que eu criei”.

O problema da carne, entretanto, estava evidente na ponta do seu nariz, que coçava. Caso fosse um ser espiritual não passaria por isso. O problema da coceira é que ela se espelha: do nariz para as bochechas, das bochechas para as orelhas, das orelhas para o pé e do pé para o resto do corpo. Ficar soterrado não é um problema tão grande quando comparado a isso.

O tempo passava. A esperança acabava, junto com o oxigênio. A situação era realmente bastante chata, e a fome e a sede apertavam. Filosofara ali, imobilizado no escuro, mais do que imaginara conseguir somando-se toda a sua vida.

Enquanto lutava para tentar sobreviver e respirar, um estranho prazer lhe tomava, por saber que antes lutar pela vida e morrer do que criar a morte e ter que viver.



CARRAPATO-ESTRELA
por: Dan Quintão

O carrapato-estrela lhe pegara. Ele sabia que deveria encontrá-lo em, no máximo, quatro horas, antes que fosse contaminado com a febre. Nesse momento, porém, refletiu que poderia passar suas últimas horas lutando inutilmente contra um destino programado: a morte. “Se for meu destino perder a vida em algumas horas” – pensou – “então que assim seja”. Não mais procurou por seu pequeno assassino. Decidiu, portanto, curtir ao máximo seus últimos instantes.

Telefonou para os velhos amigos, procurando saber notícias que realmente não lhe interessavam. Quanto mais pessoas procurasse horas antes de sua morte, também mais pessoas viriam ao seu velório – e, diga-se de passagem, maior o impacto da notícia. Conversava em tom alegre e macabro; assim, como se faz ao contar uma piada de humor negro.

Dirigiu-se a um bom restaurante e comeu tanto quanto pôde, e dos mais variados pratos, fossem eles doces ou salgados. Garantiu um lugar no céu convidando um mendigo para almoçar junto a ele. Infelizmente o fétido ser era desconfiado a ponto de pensar tratar-se de um “viado querendo me carcar”, recusando assim a oferta. Mas o que vale é a intenção, e isso já bastava para garantir sua vaga no paraíso.

Não desejava fazer nada emocionante demais. Optou por realizar vários desejos da infância. Comprou uma lupa, um telescópio, um balde de bolinhas de gude, muita maria-mole e pacotes e mais pacotes de Mirabel. Usou a lupa para queimar formigas, e tentou usar também o telescópio, que acreditava “pulverizará até besouros!”, mas foi uma experiência falha. Quanto ao resto: guardou as bolinhas e comeu os quitutes.

Não lhe restava, a esta altura, muito tempo. Lembrou-se que nunca havia se apaixonado por alguém que lhe correspondesse de volta – e por isso entende-se “que também quisesse transar comigo”. Saiu, então, em busca de seu último e derradeiro amor. Alguém que tivesse beleza, carisma, que soubesse como tratar um homem, estivesse disponível e não cobrasse muito caro.

Encontrou. Pouca conversa foi necessária. O entrosamento foi quase instantâneo. Logo estavam num quarto de motel, onde sentia-se o homem mais feliz – e eufórico – do mundo. Sua nova paixão fazia loucuras inimagináveis, que mantinham-lhe ativo de forma quase mágica. Os corpos quentes. Havia perdido a noção do tempo. Agora nada importava mais. Viver ou morrer era uma questão irrelevante.

Durante a realização de um de seus desejos mais íntimos sentiu uma fisgadinha nas partes baixas, escutou um “ugh!”, depois um estalo bem baixinho e a voz de sua donzela dizendo “Havia um carrapatinho aqui.”. O destino realmente atuava em sua vida. Não perderia a oportunidade. Por gratidão e tesão, pediu sua amante em casamento; esta, ainda de boca cheia, disse que sim. Ali acabou sua vida.


PEARL HARBOR
por: Dan Quintão

Como de costume, a Sra. Kami não dormira aquela noite. Realmente sentia muita falta do marido, falecido há três anos, razão de sua depressão.

Alguns andares abaixo, o Sr. Harbor tomava seu café, tranquilamente, pensando o quão verídica era a lei de Murphy. Resolveu testar. Dos cinco biscoitos, um caiu com o lado da geleia para cima, dois para baixo e outros dois bateram em seu pé antes de tocarem o chão, o que invalidou a experiência.

Kami tomava seu segundo diazepam matinal, empurrado por um copo de leite morno (ela preferia assim), mas ainda sem efeito.

Harbor lamentou ter desperdiçado os biscoitos. Não havia mais pacotes na despensa. Teria de sair para comprar mais; aproveitaria para fazer as compras.

Do 12º andar, para Kami, tudo parecia tão insignificante e pequeno quanto sua vida miserável. Tentou ler um livro.

“Pegar as chaves, os documentos e o dinheiro. Por que não deixo as chaves sempre no mesmo lugar?” – pensava Harbor. Focou-se em encontrar as chaves. Acendeu um Gudan, pra ajudar na memória – “Quanto mais relaxado, mais fácil de lembrar!”.

Kami tentava a quinta ligação do dia para sua psicóloga – “A maldita desligou o celular! Para que pago essa vaca?” – Ligou a TV, desligou a TV, foi pegar um ar fresco na varanda. Curtia sua visão de insignificância.

Já dentro do carro, na rua, o Sr. Harbor conferia os bolsos – “Droga! Esqueci o isqueiro…”. Estacionou o carro e resvalou no meio fio.

Kami contemplava a vista com olhar vago.

Aproximando-se do portão do prédio, o Sr. Harbor diminuiu os passos enquanto ria de seu pensamento – “É o vício que me mata! Hahaha!”

Agora, Kami vislumbrava a paisagem em alta velocidade…
MULHER BELGA SALTA PARA COMETER SUICÍDIO E MATA PEDESTRE
Segundo a mídia local, a idosa de 67 anos sofria de depressão desde a morte do marido. 
Um trágico caso de suicídio ocorrido na última segunda-feira (22) ganhou repercussão nesta quarta-feira (24) em Bruxelas, na Bélgica.
Uma mulher que se jogou de seu apartamento no 12º andar de um prédio da capital acabou matando um pedestre que estava na rua abaixo, informou a polícia.
A mulher, de 67 anos, saltou da sacada e atingiu um homem de 72 anos que estava entrando no prédio. Ambos sofreram ferimentos graves e acabaram morrendo.
Segundo a mídia local, a suicida sofria de depressão há três anos, desde a morte de seu marido.
        Fonte: http://noticias.r7.com/internacional/noticias/mulher-belga-salta-para-cometer-suicidio-e-mata-pedestre-20100324.html. Retirado em 25/03/2010.

Nota:
- Apenas a reportagem é verídica.