ESBOÇO P. A. - FRUSTRAÇÃO E APRENDIZADO


Através da perspectiva como atualmente é transmitida a disciplina de Psicologia da Aprendizagem torna-se difícil, ainda mais para sujeitos materialistas como eu, discorrer sobre a aprendizagem de forma metafísica. Tentarei, no entanto, os conceitos expostos em sala de aula, nos textos e, principalmente, no meu entendimento sobre o tema - da forma menos “física” possível - que talvez não seja suficientemente digno de nota, mas não poderia deixar de fazê-lo.

Ao iniciarmos o curso foi-nos citado o interesse do docente pela perspectiva da angústia, que, como dito, influenciaria em suas aulas, bem como procuramos entender a presença dos símbolos e suas importâncias na aprendizagem dos indivíduos. Anteriormente a isso eu vinha de leituras de Joseph Campbell, grande especialista no estudo dos símbolos; estudo de livros de zoólogos e biólogos, como O Macaco Nu e O Gene egoísta; e leitura das biografias de educadores, filósofos e afins de grande peso no campo da educação, como Hannah Arendt, Paulo Freire, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, na intenção de criar uma base para quem sabe algum dia aplicar tanto na área de educação humana quanto no desenvolvimento de softwares e simuladores, já que meu foco e especialização é e será no desenvolvimento de Inteligência Artificial.

Apesar da área ser bastante “física”, tais estudos me levaram a visualizar a aprendizagem pela via da Frustração. Quando, no início do curso, foi-nos evidenciado o interesse do professor pelo tema Angústia, de certa forma senti maior proximidade com o assunto, devido a aparente semelhança entre ambas as perspectivas, apesar de provavelmente as abordagens serem conflitantes. Até aqui temos apenas um esclarecimento, justificando o texto a seguir, que será construído sobre essas bases da forma mais sucinta possível.

Primeiramente é preciso compreender a importância da simbologia para a nossa espécie, o homo-sapiens. Ela se desenvolveu da mera – porém importantíssima – necessidade de, por exemplo, identificar uma fruta madura, boa para se comer, até a identificação de microexpressões faciais. De acordo com o desenvolvimento da capacidade de abstração humana foram surgindo os códigos e os símbolos e, ainda que o neocórtex (responsável por essa capacidade) tenha aparentemente estagnado em seu desenvolvimento, a tradição cultural encarregou-se de acumular e influenciar atribuições aos antigos e novos símbolos. A capacidade de compreender e aplicar tais símbolos tornou-se fundamental para a adaptação e inserção dos indivíduos nas sociedades.

A origem da simbologia por si só, porém, não é suficiente para guiar-nos nos “por quês” da psicologia da aprendizagem, já que baseia-se apenas na biologia e antropologia. A psicologia revira conceitos desenvolvidos para exposição de aglomerados de sensações, como a angústia ou a frustração como pontos de partida para a descoberta de novas abordagens e/ou desenvolvimento de novas técnicas que auxiliem a potencialização ou extinção de potenciais e sintomas.

Decidir se a frustração gera a angústia ou o contrário seria como discutir se nasceu primeiro o ovo ou a galinha, coisa que não levaria a lugar algum. Fica claro que os conceitos em si não são relevantes para o estudo da aprendizagem - pois são apenas representações do mundo sensorial - mas sim a forma como o indivíduo lida com tais sensações.

O primeiro grande passo na Psicologia da Aprendizagem se dá quando é compreendido que a base para um bom aprendizado é ensinar o sujeito a lidar com o frustração. Nós já nascemos frustrados, pois como se não bastasse sermos retirados do útero quentinho e aconchegante da mãe, ainda somos recebidos a palmadas. Daí para frente é uma vida de, predominantemente, frustrações e angústias. Quem não aprende a lidar com isso desde o começo tende ao fracasso-crônico crônico (porque o fracasso já é crônico), reforçada pela desistência, sendo a capacidade de persistência fator determinante para o aprendizado. Não digo com isso que uma pessoa que desiste das coisas com mais facilidade aprenda menos que outra bastante persistente, e vice e versa, já que as potencialidades de cada um também são determinadas geneticamente, bem como pelo estilo de vida, hábitos e até nível social.

A incapacidade de lidar com as frustrações e angústias geradas pelos tão naturais e abundantes fracassos está atrelada à nossa cultura competitiva e individualista. Uma sociedade mais altruísta não nos tornaria livres de tais sensações, mas as atenuaria, tornando o aprendizado menos desconfortável, e é mais ou menos desconfortável de acordo com a faixa etária, já que em determinados pontos da vida as pessoas são (ou estão) mais ou menos propícias à retenção de novos conceitos.

Retornando aos símbolos, vale relembrar que são representações de conceitos e sensações aprendidas e transmitidas pelos indivíduos e a todo instante são criados inclusive símbolos particulares, com sensações particulares. Aí fica evidente a relação entre a simbologia e a frustração. Um símbolo evitado pelo indivíduo, cuja sensação provoca alguma repulsa, uma necessidade de evitar a frustração – abrindo assim mão de qualquer chance de sucesso e superação – tem seu valor atrelado a qualquer coisa ou ambiente no qual esteja inserido e a capacidade de aprendizado da pessoa fica reduzida ou nula.