RELAÇÕES INTERPESSOAIS: DIVAGAÇÕES DE UMA MENTE PESSIMISTA


E então há as pessoas, relações, contextos e situações. Daí vem os relacionamentos interpessoais: os sólidos, os superficiais, os intensos, os eventuais e outras classificações. E existe o meu pessimismo existencialista. Isto fode totalmente com o que tange toda a minha vida. Primeiro, porque não é fácil se intensificar nas relações quando constantemente você se avalia com a possibilidade da morte iminente; segundo, porque além de analisar eu considero a pior possibilidade e a tomo como mais provável.
 
Ter um pessimismo existencialista como “filosofia de vida” tem seus prós e contras. O pró, nesse caso, seria ter um resultado um tanto quanto otimista se comparado ao parâmetro inicial, já que se eu estou escrevendo este texto significa que nenhum motorista embrigado às três da tarde me atropelou na calçada enquanto eu voltava do supermercado. O contra é que eu tenho que lidar com as coisas da forma como elas estavam, inacabadas, e não próximas ao fim, como minha mente previra. É simplesmente impraticável conversar (ou deixar a entender) com todas as pessoas como se – err...bom... – fosse a última vez, sua ou dela, não importa.

Eu poderia mentir pra mim mesma e dizer que essa é uma perspectiva realista. Mas não é. Realismo é lidar com a morte como inevitável, de forma que não me atrapalhe em meus planos. Pessimismo é não me engajar em projetos a longo prazo, porque, bom, não sei se estarei viva para isso.

O existencialismo me põe como responsável - e não culpada - pelos meus atos, o que acaba dando certa sensação de controle e de escolha, mas fato é que essa não-filosofia de vida de certa forma até ajuda nos relacionamentos mais sólidos que venho cultivando ao longo dos anos, pois me traz uma sensibilidade maior. Não necessariamente me torna mais “empática”, no entanto, faz com que eu analise mais a forma como sou vista nas relações interpessoais e de que forma o que as outras pessoas nutrem por mim acarreta uma responsabilidade de minha parte.

Veja bem, contrariando o senso comum e as pessoas que leram ‘O Pequeno Príncipe’ (ou estariam os dois grupos no mesmo pacote?), não me sinto minimamente responsável pelas pessoas que cativo. Primeiramente, porque não me esforço pra isso. Segundamente, simplesmente não me importo. Sinceramente,tudo bem que eu vivenciei poucas coisas nesta vida, mas o pouquíssimo de experiência que tenho me permitiu observar que é mais inteligente olhar pra si. A máxima de Hobbes é totalmente válida ‘o homem é o lobo do homem’. As pessoas não conhecem os outros, tampouco a si, de forma que eu tomei pra mim, há bastante tempo, que não devo basear escolhas, decisões e gostos nos pensamentos ou achismos de outras pessoas. Simples: o que realmente importa e deve importar pra mim é o que eu penso/acho. Não é uma decisão ilhada e egoísta (não totalmente egoísta), é apenas o modo mais próximo que eu consegui chegar à autossuficiência.

O que as pessoas que amo pensam importa. O que é importante pra elas, muitas vezes, se torna importante pra mim. Eu não defendo posturas inflexíveis, mas eu acho que o que tange as minhas prioridades na vida e princípios deve ser decidido por mim, apenas. Mesmo que o meu subconsciente aja sem meu consentimento me fazendo escolher sinuosamente, a iniciativa dos rumos que vou tomar é exclusiva minha. E isso abrange todos os âmbitos da minha vida: o curso que farei, os amigos que irão à minha casa, a pessoa que beijarei, o político no qual votarei etc.
Quando assumo para mim que a interferência que as outras pessoas vão ter é mínima, eu espero a recíproca. Eu, inclusive, me assusto com aproximações que exijam um pouco mais da minha atenção, simplesmente porque eu rejeito a responsabilidade de me tornar responsável por coisas que eu não sei mensurar nem julgar com precisão, como por exemplo o que outra pessoa sente.

O que eu falo-acho-penso não é importante nem deve ser tratado como tal, simplesmente porque – TCHARAM! – é apenas o que minha mente limitada foi capaz de observar e chegar às conclusões que exprimo. Não deve ser relevante para outra pessoa. Meus melhores amigos divergem de mim em pontos de vistas totalmente cruciais. O que os torna tão interessantes é exatamente o fato de que eles têm toda uma base sólida para defender o que acreditam, que pouco importa o que eu penso. E isso não gera atrito entre nós.

Sempre aparecem pessoas que não entendem o padrão comportamental do ‘não faz diferença o que você pensa’ e almejam alcançar certos níveis de relevância na nossa vida, tentando tornar importante tudo o que elas têm a dizer, gerando frustração ao perceberem que o esforço, na maioria das vezes, é inútil. Não vou me apegar a ideias só porque elas vêm de pessoas queridas. Isso seria negligenciar o ponto que nos difere como seres humanos: a inteligência. Se busco clareza e entendimento a respeito da vida, necessariamente não vou me atentar ao enunciador, o que importa – e deve importar – é a mensagem.

E se relacionar fica cada vez mais complicado.

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