Por: Jonathan Oliveira
O Assinalado
Tu és o louco da
imortal loucura,
O louco da loucura mais
suprema.
A Terra é sempre a tua
negra algema,
Prende-te nela a
extrema Desventura.
Mas essa mesma algema
de amargura,
Mas essa mesma
Desventura extrema
Faz que tu'alma
suplicando gema
E rebente em estrelas
de ternura.
Tu és o Poeta, o grande
Assinalado
Que povoas o mundo
despovoado,
De belezas eternas,
pouco a pouco.
Na Natureza prodigiosa
e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos
imortais de louco!
(SOUSA,
Cruz e. Poesia completa. Florianópolis:
Fundação
Catarinense de Cultura, 1981. P. 135)
Se ser diferente é normal, ser louco seja, talvez, racional. O
que vai determinar este conceito é a definição que cada indivíduo atribui a
esta patologia, ora psíquica, ora social, pois até a loucura foi padronizada,
negando o fato de que, para alguns, é esta uma das melhores formas de viver em
busca da felicidade.
Pressupõe-se que todos sejam loucos: afinal, quem nunca se pegou
falando ou rindo sozinho? Trazendo à tona memórias marcantes e carregadas de
lágrimas? A sociedade é tão preconceituosa e incrédula que se torna incapaz de
admitir-se anormal, impondo padrões que, tendo seus limites ultrapassados,
resultam na agressão e no choque entre os supostos princípios éticos e a moral
(ou “pseudomoral”).
O indivíduo que ri consigo mesmo, se surpreendido por outrem,
está em estado de delírio, transe, ou até transcendendo a realidade, sem ao
menos ter a chance de explicar-se em relação a seus pensamentos e lembranças; o
que chora está depressivo e triste, tendo sido impossibilitado de compartilhar
suas memórias que lágrimas lhe trazem. A dada loucura está nessas medíocres
normas e taxações, pois quem as segue fielmente e com cabresto, sem olhar em
volta, não se dá a oportunidade de experimentar os momentos felizes ou mesmo
nostálgicos que esta dita “anormalidade” proporciona.
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| O Grito (1893) - Edvard Munch |
Deste modo, a sanidade é um estado que não deve ser vivido
integralmente, mesmo que ela seja capaz de descrever o nível de qualidade de
vida cognitiva e emocional ou a ausência de doença mental. Ser normal o tempo
todo cansa e muitas pessoas deveriam buscar na “boa loucura” uma maneira de apreciar
a vida e procurar um equilíbrio entre as atividades e os esforços para atingir
a plenitude de espírito. Até quando agir de modo distinto do da maioria das
pessoas será visto como algo simplesmente diferente, ou como inadequação (aos
padrões), ou até mesmo como loucura? Um trecho adaptado da canção “Balada do
Louco”, de Arnaldo Baptista e Rita Lee, explicita quão egoísta é o pensamento
de que ser louco é sempre loucura: “Dizem
que sou louco por pensar assim; Se eu sou muito louco, mais louco é quem me diz
que não é feliz, não é feliz.” Cada um viva como quiser, seja louco ou
normal quando achar conveniente, embarque na onda de absorver culturas, sem se
deixar convencer por estes paradigmas pré-estabelecidos. Para K. Meninger,
psiquiatra norte-americano, a “normalidade
é a habilidade para se adaptar ao mundo exterior com satisfação e para dominar
a tarefa de culturação.”
Algumas das chagas entranhadas na sociedade deste século só
serão saradas ou mesmo extintas quando a razão deixar de ser o único guia para
o alcance da felicidade, se é que, racionalmente, ela existe; e também quando o
homem se deixar levar um pouco mais pela imaginação. Regresse-se aos tempos de
criança, em que falar sozinho era divertido, em que os bonecos eram bons
entendedores, em que as palavras eram só brinquedos, pois tudo isto era normal,
não havia julgo ou taxações, não era loucura.

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