LOUCOS NORMAIS OU NORMAIS LOUCOS?



O Assinalado

Tu   és  o   louco   da   imortal   loucura,
O   louco   da   loucura   mais   suprema.
A Terra é sempre a tua negra  algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de  amargura,
Mas  essa mesma Desventura extrema
Faz    que    tu'alma    suplicando    gema
E   rebente   em   estrelas   de   ternura.

Tu   és   o   Poeta,   o  grande Assinalado
Que    povoas    o    mundo    despovoado,
De   belezas   eternas,   pouco  a  pouco.

Na      Natureza      prodigiosa     e     rica
Toda   a  audácia   dos  nervos justifica
Os teus  espasmos  imortais  de  louco!
                                                 (SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Florianópolis:
                                      Fundação Catarinense de Cultura, 1981. P. 135)


     Se ser diferente é normal, ser louco seja, talvez, racional. O que vai determinar este conceito é a definição que cada indivíduo atribui a esta patologia, ora psíquica, ora social, pois até a loucura foi padronizada, negando o fato de que, para alguns, é esta uma das melhores formas de viver em busca da felicidade.

     Pressupõe-se que todos sejam loucos: afinal, quem nunca se pegou falando ou rindo sozinho? Trazendo à tona memórias marcantes e carregadas de lágrimas? A sociedade é tão preconceituosa e incrédula que se torna incapaz de admitir-se anormal, impondo padrões que, tendo seus limites ultrapassados, resultam na agressão e no choque entre os supostos princípios éticos e a moral (ou “pseudomoral”). 

     O indivíduo que ri consigo mesmo, se surpreendido por outrem, está em estado de delírio, transe, ou até transcendendo a realidade, sem ao menos ter a chance de explicar-se em relação a seus pensamentos e lembranças; o que chora está depressivo e triste, tendo sido impossibilitado de compartilhar suas memórias que lágrimas lhe trazem. A dada loucura está nessas medíocres normas e taxações, pois quem as segue fielmente e com cabresto, sem olhar em volta, não se dá a oportunidade de experimentar os momentos felizes ou mesmo nostálgicos que esta dita “anormalidade” proporciona.

O Grito (1893) - Edvard Munch
     Deste modo, a sanidade é um estado que não deve ser vivido integralmente, mesmo que ela seja capaz de descrever o nível de qualidade de vida cognitiva e emocional ou a ausência de doença mental. Ser normal o tempo todo cansa e muitas pessoas deveriam buscar na “boa loucura” uma maneira de apreciar a vida e procurar um equilíbrio entre as atividades e os esforços para atingir a plenitude de espírito. Até quando agir de modo distinto do da maioria das pessoas será visto como algo simplesmente diferente, ou como inadequação (aos padrões), ou até mesmo como loucura? Um trecho adaptado da canção “Balada do Louco”, de Arnaldo Baptista e Rita Lee, explicita quão egoísta é o pensamento de que ser louco é sempre loucura: “Dizem que sou louco por pensar assim; Se eu sou muito louco, mais louco é quem me diz que não é feliz, não é feliz.” Cada um viva como quiser, seja louco ou normal quando achar conveniente, embarque na onda de absorver culturas, sem se deixar convencer por estes paradigmas pré-estabelecidos. Para K. Meninger, psiquiatra norte-americano, a “normalidade é a habilidade para se adaptar ao mundo exterior com satisfação e para dominar a tarefa de culturação.” 

     Algumas das chagas entranhadas na sociedade deste século só serão saradas ou mesmo extintas quando a razão deixar de ser o único guia para o alcance da felicidade, se é que, racionalmente, ela existe; e também quando o homem se deixar levar um pouco mais pela imaginação. Regresse-se aos tempos de criança, em que falar sozinho era divertido, em que os bonecos eram bons entendedores, em que as palavras eram só brinquedos, pois tudo isto era normal, não havia julgo ou taxações, não era loucura.

      Essa disputa entre padrões racionais e loucura tem seus fatores invertidos, provindo de um único e simples fato: os loucos são normais e os normais, loucos. E, tendo em vista que contra fatos não há argumentos, a beleza, a lucidez, a sanidade e mesmo a normalidade estão nos olhos de que vê, variando conforme a constituição intelectual e social adquirida pelos indivíduos ao longo da vida, afinal, como bem colocou Carlos Drummond de Andrade “Somos lúcidos na medida em que perdemos a riqueza da imaginação”.

O LUXO DA COR



Brancos, pretos, pardos, amarelos, indígenas (isso nem cor é).  Toda vez que se faz necessário preencher algum formulário, principalmente no que diz respeito aos formulários do governo federal, uma dúvida me ocorre: Que cor devo escolher para receber mais vantagens? Desculpe caros idealistas e defensores de raças e cotas, mas minha cor nunca está lá como opção. Tais questionários deveriam vir acompanhados de uma cartela de cores, como faz a Suvinil® – facilitaria nossas vidas nesse sentido, mas os benefícios da “cor” continuariam sendo uma questão ética.

Criança descobre que é negra
O argumento da escravidão é uma grande furada, o da favelização não funciona mais. Nem os dados do IBGE relativos à cor da população são precisos, já que por mais melanina que haja na pele vale o que se diz, não o que se vê. Bastante filosófico isso. Não confiar no que se vê. Platão adoraria. Retomando os dados do IBGE, o número de negros no Brasil aumentou, mas a população “branca” continua dominante. Arram, acredito...

Muitas pessoas não-brancas tem preconceito com a própria cor justamente porque o próprio conceito de cor está historicamente estereotipado. Eis aí mais um argumento dos que defendem o sistema de cotas raciais. O único equívoco, amigos, é que em testes onde a cor não importa esse sistema não se aplica - pelo menos não deveria. Por outro lado concordo plenamente com as cotas sociais: elas não dão vantagem a apenas uma parcela da população carente, mas sim a toda ela por igual (ou um sujeito negro "vale" mais que um de qualquer outra tonalidade de pele?).

A luta não deveria ser pela vantagem de agumas pessoas sobre outras, mas sim pela superação dos paradigmas raciais. Cores não fazem pessoas serem mais inteligentes ou necessitadas do que outras, gente burra vem em cores sortidas, como num pacote de jujubas. Sim, a inteligência pode ser desenvolvida através de estímulos e uma boa educação, e sim, os negros foram discriminados, mas acho que após um pouco mais de cem anos e uma miscigenação étnica e social intensa não faz mais sentido separamos a população por cores.

A lei da vantagem nunca resolverá problema algum, pois quem está na desvantagem futuramente poderá ser considerado uma minoria e haverá a necessidade, seguindo essa lógica, de dar a estes também algumas vantagens. É um ciclo vicioso. Isso vale para todo tipo de diferenciação, incluindo casos que vão além da cor, como é o caminho que a luta contra a homofobia está tomando e o movimento feminista, que passou do útil ao ridículo há muito tempo, mas deste falarei em outra oportunidade.

O que tento dizer é que um conceito tão ultrapassado quanto o de cor – que é apenas uma forma mais recente de definirmos a velha e conhecida “raça” – não pode e não deve ser tomado como base num país que se diz democrático (mais um termo que me faz rir). 

Talvez algum dia eu preencha um questionário que inclua nele minha cor e minha raça, nos seguintes moldes:

Cor:
(X)Brasileira
( )Outra

Raça:
(X)Humana
( )Outra

RELAÇÕES INTERPESSOAIS: DIVAGAÇÕES DE UMA MENTE PESSIMISTA


E então há as pessoas, relações, contextos e situações. Daí vem os relacionamentos interpessoais: os sólidos, os superficiais, os intensos, os eventuais e outras classificações. E existe o meu pessimismo existencialista. Isto fode totalmente com o que tange toda a minha vida. Primeiro, porque não é fácil se intensificar nas relações quando constantemente você se avalia com a possibilidade da morte iminente; segundo, porque além de analisar eu considero a pior possibilidade e a tomo como mais provável.
 
Ter um pessimismo existencialista como “filosofia de vida” tem seus prós e contras. O pró, nesse caso, seria ter um resultado um tanto quanto otimista se comparado ao parâmetro inicial, já que se eu estou escrevendo este texto significa que nenhum motorista embrigado às três da tarde me atropelou na calçada enquanto eu voltava do supermercado. O contra é que eu tenho que lidar com as coisas da forma como elas estavam, inacabadas, e não próximas ao fim, como minha mente previra. É simplesmente impraticável conversar (ou deixar a entender) com todas as pessoas como se – err...bom... – fosse a última vez, sua ou dela, não importa.

Eu poderia mentir pra mim mesma e dizer que essa é uma perspectiva realista. Mas não é. Realismo é lidar com a morte como inevitável, de forma que não me atrapalhe em meus planos. Pessimismo é não me engajar em projetos a longo prazo, porque, bom, não sei se estarei viva para isso.

O existencialismo me põe como responsável - e não culpada - pelos meus atos, o que acaba dando certa sensação de controle e de escolha, mas fato é que essa não-filosofia de vida de certa forma até ajuda nos relacionamentos mais sólidos que venho cultivando ao longo dos anos, pois me traz uma sensibilidade maior. Não necessariamente me torna mais “empática”, no entanto, faz com que eu analise mais a forma como sou vista nas relações interpessoais e de que forma o que as outras pessoas nutrem por mim acarreta uma responsabilidade de minha parte.

Veja bem, contrariando o senso comum e as pessoas que leram ‘O Pequeno Príncipe’ (ou estariam os dois grupos no mesmo pacote?), não me sinto minimamente responsável pelas pessoas que cativo. Primeiramente, porque não me esforço pra isso. Segundamente, simplesmente não me importo. Sinceramente,tudo bem que eu vivenciei poucas coisas nesta vida, mas o pouquíssimo de experiência que tenho me permitiu observar que é mais inteligente olhar pra si. A máxima de Hobbes é totalmente válida ‘o homem é o lobo do homem’. As pessoas não conhecem os outros, tampouco a si, de forma que eu tomei pra mim, há bastante tempo, que não devo basear escolhas, decisões e gostos nos pensamentos ou achismos de outras pessoas. Simples: o que realmente importa e deve importar pra mim é o que eu penso/acho. Não é uma decisão ilhada e egoísta (não totalmente egoísta), é apenas o modo mais próximo que eu consegui chegar à autossuficiência.

O que as pessoas que amo pensam importa. O que é importante pra elas, muitas vezes, se torna importante pra mim. Eu não defendo posturas inflexíveis, mas eu acho que o que tange as minhas prioridades na vida e princípios deve ser decidido por mim, apenas. Mesmo que o meu subconsciente aja sem meu consentimento me fazendo escolher sinuosamente, a iniciativa dos rumos que vou tomar é exclusiva minha. E isso abrange todos os âmbitos da minha vida: o curso que farei, os amigos que irão à minha casa, a pessoa que beijarei, o político no qual votarei etc.
Quando assumo para mim que a interferência que as outras pessoas vão ter é mínima, eu espero a recíproca. Eu, inclusive, me assusto com aproximações que exijam um pouco mais da minha atenção, simplesmente porque eu rejeito a responsabilidade de me tornar responsável por coisas que eu não sei mensurar nem julgar com precisão, como por exemplo o que outra pessoa sente.

O que eu falo-acho-penso não é importante nem deve ser tratado como tal, simplesmente porque – TCHARAM! – é apenas o que minha mente limitada foi capaz de observar e chegar às conclusões que exprimo. Não deve ser relevante para outra pessoa. Meus melhores amigos divergem de mim em pontos de vistas totalmente cruciais. O que os torna tão interessantes é exatamente o fato de que eles têm toda uma base sólida para defender o que acreditam, que pouco importa o que eu penso. E isso não gera atrito entre nós.

Sempre aparecem pessoas que não entendem o padrão comportamental do ‘não faz diferença o que você pensa’ e almejam alcançar certos níveis de relevância na nossa vida, tentando tornar importante tudo o que elas têm a dizer, gerando frustração ao perceberem que o esforço, na maioria das vezes, é inútil. Não vou me apegar a ideias só porque elas vêm de pessoas queridas. Isso seria negligenciar o ponto que nos difere como seres humanos: a inteligência. Se busco clareza e entendimento a respeito da vida, necessariamente não vou me atentar ao enunciador, o que importa – e deve importar – é a mensagem.

E se relacionar fica cada vez mais complicado.