Por: Dan Quintão
“O dinheiro é uma felicidade humana abstracta; por isso aquele que já não é capaz de apreciar a verdadeira felicidade humana, dedica-se completamente a ele.”
“O dinheiro é uma felicidade humana abstracta; por isso aquele que já não é capaz de apreciar a verdadeira felicidade humana, dedica-se completamente a ele.”
(Arthur Schopenhauer )
A análise de uma frase fora de contexto geralmente resulta em um
falácia. Felizmente nosso texto não se resume à análise da frase inicial, esta
apenas pareceu adequada ao tema e seu conteúdo. Então tenha em mente que a
única falácia aqui é um apelo à autoridade disfarçado de citação. Releve.
A questão é que precisamos urgentemente refletir melhor sobre a
relação humanos-dinheiro. Por mais que o tutu pareça um tema para as pessoas
racionais e insensatas da área de exatas, ele também deve ser tema de discussão
entre as pessoas sentimentais e sensatas da área de humanas. Pensando bem,
esqueça os estereótipos e vamos falar sobre grana.
Primeiro é preciso pensar no que é possível comprar com o
dinheiro: tudo. Sim, até sentimentos. Quanto mais vazia a pessoa maior a
necessidade de dinheiro. O dinheiro é a manifestação dos desejos humanos, visto
como o caminho mais rápido para o alcance de nossos objetivos, devido
diariamente, desde nossa concepção, sermos direcionados a acreditar que nossa
felicidade reside neste ou naquele produto. Só aqui já podemos tirar duas
conclusões:
I) Se tais produtos realmente trouxessem a felicidade à qual
cremos necessitar eles não precisariam de novas versões;
II) O mundo está abarrotado de dinheiro, o que nos leva a sugerir
que provavelmente também está abarrotado de pessoas vazias.
Essa segunda conclusão me faz lembrar da relação entre índios e
máquinas fotográficas na América do Norte, onde algumas tribos criam que ao
serem fotografados suas almas eram roubadas e aprisionadas nas fotos. Talvez
influenciado por essa história chego a pensar que eles, os índios, erraram por
pouco. Algo ali aprisionaria suas almas, mas não a máquina fotográfica, e sim
aquilo que permitiu que o fotógrafo adquirisse tal instrumento. Assim que o
cacique descobriu a utilidade do cacife a tradição indígena perdeu seu valor e
foi substituída pelos desejos manifestados através das verdinhas – que nem sei
se eram mesmo verdes naquela época.
O capitalismo selvagem (já deixo claro que não sou nenhum
anticapitalista) sobrevive do acúmulo de sonhos, trocando-os por muletas
oferecidas a nós no nosso cotidiano. Se sua vontade é ser um pouco menos
invisível perante a sociedade ou alguns elementos dela, a você são oferecidas
“n” opções para alcança-la, como a moda e a anti-moda, a esquerda e a direita –
talvez por isso o dinheiro seja tão colorido, assim representa todas as
posições e partidos.
Pra dar uma noção do tamanho da porcaria que o dinheiro é podemos
fazer um cálculo rápido e prático: o PIB do Brasil, país onde você
provavelmente reside, foi de 4,1 trilhões de reais em 2011 – eu sei, eu sei,
colocando em porcentagem seu salário é considerado inexistente perto desse
número. Imagine então quanto desse dinheiro você precisaria para resolver sua
vida agora. No Brasil havia cerca de 190.732.694 pessoas em 2010 – e
sempre aumentando, porque a gente reproduz mais do que coelho bêbado, no cio,
em praia de nudismo - todas precisando de muito mais ou um pouco menos de
dinheiro do que você para resolverem suas vidas. Não precisa fazer conta, se
“apenas” cinquenta mil reais fossem o suficiente para resolver a sua vida e do
resto da população, multiplicando este valor pela quantidade de gente deste
país, o PIB mal conseguiu alcançar metade do valor necessário!
Uma boa quantidade dos seus sonhos estão compactadas aos sonhos de
outras pessoas – que são bem parecidos ou idênticos aos seus – em forma de
números em computadores mundo afora, e todo o resto, aqueles que ainda não foi
possível transformar em bufunfa, você provavelmente está jogando fora de alguma
outra forma. O negócio é tão bruto que até a azia ou dor de cabeça que você ou
alguma outra pessoa venham a ter por causa do dinheiro vai gerar mais dinheiro.
Dinheiro, dinheiro, dinheiro, causando buracos em bolsos, estômagos e cabeças
(as grandes crises que o digam).
Então antes de nos preocuparmos em como gastar o nosso dinheiro,
paremos só um momento para pensar em como vamos gastar os nossos sonhos e
desejos, se o dinheiro está sendo usado como meio para alcança-los ou mera
ferramenta para conseguir mais e mais dinheiro, um acúmulo de sentimentos e
sonhos de milhões de pessoas que acabam por nos afastar dos nossos próprios
objetivos.
Como eu já refleti bastante, posso dizer seguramente que sei
exatamente qual é meu maior sonho no momento e como gastar bem meu dinheiro:
estou com fome e preciso urgentemente de um hamburguer do palhaço
capitalista.
Autor: Dan Quintão